VIDA DE TAXISTA: QUILÔMETROS DE HISTÓRIA A PERDER DE VISTA

O decano do volante Laércio Pessanha tem 71 anos e 39 de muito trecho corrido. Histórias a perder de vista, então, nem se fale. Já levou famílias inteiras para Nova Xavantina (MT) em uma aventura de mais de três mil quilômetros e quatro dias de viagem. “Levei a esposa e os filhos de um grande fazendeiro de Mogi Mirim. Eles não gostavam de avião”, informou.

Mas não ficou por aí. Sua caranga comeu asfalto rumo à Goiânia e também a uma pequena cidade do Paraná, chamada de Iritama, neste último caso para levar a família de um caminhoneiro recém-morto. “Viajamos a noite inteira e chegamos junto com o corpo”, contou ele, satisfeito com o feito.

Dentro do automóvel, seo Laercio adianta que o segredo é ouvir primeiro e falar depois. Isso é necessário, segundo o experiente ‘motora’, para conhecer o gênio de quem vai ao lado.

Causos são o que não faltam, mas o profissa gosta mesmo é de observar o que se passa na alma dos passageiros.

De tanto conhecer gente e situações, a alma sensível do taxista da Praça da Capela, no Guaçu, faz com que translitere os relatos em poemas.

“Gosto de aproveitar as conversas e fazer poesias deste lado real da vida”, pontua. “São poesias com conteúdo moral do nosso povo”, alude.

Uma particularidade é que o taxista não transcreveu nenhum dos poemas para o papel. 
Os têm gravado na cabeça e pretende gravar CD com tudo que tem na cuca no próximo mês de março, disse o simpático chofer, que usa o pseudônimo artístico de João de Barro nas apresentações para a melhor idade, seu público predileto, nos bailões dos vovôs e vovós.

DRAMAS E SORRISOS

Benê confirma que taxista também atua como psicólogo

O vai e vem de passageiros é constante. A cada corrida, uma nova situação, uma nova história. A vida de taxista é assim mesmo. Fugaz, mas cheia de marcas profundas. Lições de gente que nunca mais serão vistas. Dramas e sorrisos da vida como ela é.

Benedito Silvério Machado é novo na profissão. Há quatro anos aceitou a empreitada de substituir o sogro taxista, morto numa corrida a uma das conhecidas boates da cidade. Foi atacado e perdeu a vida.
Trabalha no ponto da Matriz da Penha, centro de Itapira, e já coleciona um montão de histórias para contar. Uma delas envolveu certo conhecido dele.

“Ele me pediu para fazer uma corrida até a rodoviária e fui buscá-lo em sua casa”, disse. “No trajeto, o passageiro me confidenciou que o casamento dele havia acabado”. “A mulher o havia trocado por outra mulher, sendo a grande tristeza da vida dele. Nunca mais o vi”.

Casos assim chegam aos borbotões aos taxistas. São brigas de marido e esposa, rompimentos repentinos, gente com a cara fechada e outros bastante expansivos. “Ajo como psicólogo e dou conselhos, mas também ouço e oriento”, afirmou. “Algumas vezes recebo uma bordoada de um mal educado, mas faz parte da vida, pois nem sempre estamos bem”.

A rotina de chofer de praça, como antigamente se chamavam os taxistas, é feita de quilometragem. Viagens mais longas constituem parte do dia-a-dia, geralmente de pessoas apressadas ou com urgência. “Já fiz corrida pro Rio de Janeiro, um bate-volta, porque o passageiro tinha medo de avião”, conta Benê, que faz em média 70 corridas por semana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *