‘Sobrevivi tomando o meu xixi’, diz aposentada que se perdeu no canavial

‘Aqui vai ser o meu começo ou o meu fim’. Ao dizer em voz alta estas palavras, a aposentada Benedita Candreva Caversan, a dona Ditinha, esperou pelo resgate perdida. Estava em uma estrada no meio do nada, em um canavial extenso.

Uma força tarefa gigantesca, que envolveu policiais militares, guardas municipais civis de Itapira, canil da Guarda de Mogi Mirim e gcm’s de Santo Antonio de Posse – além do helicóptero Águia da PM, salvou a simpática mulher.

Estava desaparecida havia três dias e duas noites. Foi encontrada na tarde de terça-feira, 28, no Brumado, um bairro rural cheio de becos e carreadores. Sentia frio, saudades, angústia e principalmente sede.

Dona Ditinha foi identificada pelo focinho poderoso da cachorra Rajah, uma Cane Corso preta, pertencente aos guardas municipais mogimirianos.

“Quando eu vi aquele cão forte, grande, negro, com um guarda atrás, eu comecei a chorar. Me ajoelhei e fui em direção ao cachorro. O abracei. Não senti medo dele, apenas vontade de chorar, de gritar: meu Deus, estou salva”, declarou a mulher ainda emocionada, com lágrimas nas órbitas, sentada no sofá de casa com a filha, Cintia. Os olhos transpareciam o pavor dos dias anteriores.

Ela relatou que, nos momentos em que passou errante, só tentava manter a serenidade. Nas noites de solidão e frio falava consigo: “a Polícia e o Samu vêm me buscar”.

Confessou que tinha ‘visões’ com viaturas e assim se motivou para não perder a noção de tempo. Era domingo à noite. Desistiu de procurar ajuda em uma fazenda que nunca chegava porque teve medo de ser atacada por cães bravios. Retornou ao carro.

Passou nele a primeira noite, no meio ao mato, na companhia de animais peçonhentos, raposas, insetos e corujas. “Eu acelerava o veículo, mas ele patinava na grama”. Cansada de insistir, enfim desligou a chave do contato e finalmente dormiu.

AMANHECE – a segunda-feira surgiu na rabeira de um sol fraco. Estava muito frio. Pela manhã, Ditinha criou coragem e resolveu fazer a sua hora.

Recobrou coragem e escalou a subida íngreme em direção a uma estrada que não via. “Tive que me segurar nas gramas e escalar a escarpa. Estava quase desistindo quando cheguei à estrada”, relatou. “Oh, meu Deus, agora vai dar certo”, exclamou.
Ledo engano. Era apenas mais um episódio do longo terror que começou no domingo.

A aposentada saiu de casa e foi a um supermercado no bairro dos Soares. Em seguida, foi visitar uma amiga justamente no Brumado. Mas alguma coisa estranha pairava no ar.
“Sentia que algo poderia dar errado, uma intuição ruim me avisava, mas mesmo assim fui e aconteceu tudo isto comigo”, relata.

Daí por diante, o que se seguiu foram momentos de pavor, ansiedade e medo. Muito medo, aliás, depois que tomou acesso equivocado em uma bifurcação.

Foi parar num labirinto e ninguém mais a viu. Nem mesmo o Águia da PM conseguiu enxergá-la, apesar de todo o trabalho excepcional e valente das forças de segurança.

O comandante da operação chegou perto, a um quilômetro de distância de onde a aposentada estava, mas não a enxergou. “Mas eu via o helicóptero, acenava, pulava, gritava e ele indo embora, me deixando a chorar”. Contudo, havia um porquê dele não a encontrar. O raio de ação do resgate através da aeronave incluíam ações em 10 quilômetros quadrados, desde o sinal emitido pelo celular da aposentada.

É que ela fez um telefonema para um dos filhos, porém a bateria do aparelho acabou. Deu apenas para uma ligação e ficou sem comunicação daí por diante.

Foram dias e noites em companhia do nada, da noite, dos bichos e da mata. Teve a oração por divisa. O Divino foi o seu único sustentáculo. De repente, a água acabou.

Sob o sol causticante do dia, só restou à dona Ditinha torcer com as mãos fracas algumas canas mais tenras e tomar o caldo mirrado. Todavia, o suco mirrado e insipiente dava mais sede.

Assim, para saciar a vontade de água, e manter o equilíbrio do próprio organismo, a aposentada lançou mão de um recurso extremo. “Urinei em uma garrafinha de plástico e tomei o meu próprio xixi. Não tenho vergonha de dizer que sobrevivi por causa do xixi”, observou.

O resgate chegou com a transferência de Ditinha para o HM, onde foi devidamente hidratada. “Eu só queria muita água e café com leite”, assinalou.

E para coroar o final feliz, neste domingo a família se reúne na casa da mãe reencontrada. Os filhos e os amigos mais próximos vão comemorar os 69 anos da mulher que nasceu de novo. “Na verdade, é meu primeiro aniversário: eu nasci em 28 de abril de 2015”, finalizou.

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