SEO CHICO, 104 ANOS, O ÚLTIMO MATUTO

Guardem bem este nome: Francisco Ramos, 104 anos, sendo 35 deles capinando roça de cana. Aposentado pela Usina Nossa Senhora Aparecida e ainda trabalhando. O que poderia ser exceção, atualmente é uma regra. Seo Chico, como é conhecido o vovô que mora na rua Maranhão, na Vila Izaura, em Itapira, é o exemplo maior de uma geração que não tinha vergonha de ser trabalhadora.

Dá rasteira na juventude que hoje infesta as ruas com skate nas mãos, pouco estuda (apesar das facilidades), ganha tudo de papá e mamã, e ainda por cima sofre da síndrome da preguiça e da rebeldia sem causa.

Nasceu no bairro rural da Itapirinha. Filho mais velho de sete irmãos, seo Chico prima pela memória de elefante. Lembra-se de tudo, de coisas do passado próximo e do remoto e não guarda no coração o sentimento do arrependimento. Ainda faz pequenos serviços. Capina o fundo de casa e se os vizinhos precisarem de algo está prestativo.

Hábitos simples e fala mansa. No relógio dele não existe pressa

No dia da entrevista, o vovô bem disposto confidenciou que havia enterrado um amigo, 23 anos mais novo. Mais dentre dezenas que viu partir para outros rincões. Foi ao velório a pé. Aliás, caminhar é com ele mesmo.

Quando cisma, bate pernada até o Centro para ver o movimento. Adora fazer o percurso. Viu a cidade crescer e evoluir, mas não tem sentimentos do passadismo. Acompanhou lances significativos e importantes de Itapira, como as batalhas da Revolução de 1932, que transformou as ruas itapirenses no palco de lutas inglórias que não levaram ninguém a lugar nenhum, a não ser para os barões do café que continuaram lucrando.

“Vi toda a movimentação das tropas em direção do Morro do Gravi, foi coisa feia”, destacou. “Também teve aquele tropel indo a Ouro Fino e a Eleutério”, mencionou com uma lucidez de causar inveja.

VELAS

Seo Chico gosta de prosear e adora comer torresmo de panceta

O vovô centenário gosta do burburinho, mas não abre mão do silêncio. Em casa tem atitudes modestas. O quarto é módico. A cama conta com apoio de tijolos para sustentar um corpo franzino, magrinho.

Sentado à cadeira lembra um preto velho moreno, um calunga das cidades. Acende velas contra trovões, relâmpagos e raios dos dias de temporal. “Ponho sal grosso que é pra espantar o perigo”, observa com uma voz ainda bastante clara.

A mulher, Ana Ramos, morreu faz mais de 40 anos. Parece ser um ponto longínquo de uma existência que se acostumou a tudo. Teve pelo menos quatro filhos. Duas ‘meninas’ estão vivas, uma delas, Lázara, mora com ele e o supre de um mínimo de conforto das coisas domésticas

Os pais Vicente e Maria do Rosário ainda marcam presença. Não fisicamente, mas espiritualmente. Seo Chico garante que eles surgem volta e meia para prosear. “Descem por cima do telhado e quando minha mãe vem, eu ponho minha cabeça no colo dela”, confidencia sem pestanejar. “Quem disse que as pessoas morrem?”, pergunta.

Come de tudo. Adora torresmo, “aqueles de panceta, bitelos”, declara. Nunca bebeu, por imposição do pai que batia de relho se visse os filhos com cachaça na boca. Fumar é outro vício que passa longe dele.

Desta forma, a pergunta que sempre emerge nestas ocasiões é: qual o segredo de se viver tanto tempo? “Eu não sei”, diz simplesmente. Talvez, seo Chico, seja a paciência.

Para viver bem, bastante e em paz não é preciso morar em palácio

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