POLÊMICA: POR QUE AINDA É TÃO DIFÍCIL SER GAY!?

O recente massacre de 49 gays na boate Pulse, ocorrido na cidade de Orlando (EUA), trouxe à tona de novo a milenar perseguição aos integrantes LGBT (gays, lésbicas, travestis e transgêneros). Por incrível que pareça, gays são uma minoria social obrigada a viver em nichos e quedada por preconceitos heteronormativos ainda no século 21, apesar da renda financeira acima da média nacional, de conquistas sociais e destaque em postos de trabalho.

É como se o Estado, formado por todos nós, tentasse surrupiar direitos garantidos a eles na Constituição. Então, a verdade é que gays são perseguidos, oprimidos, destratados e sonegados em seus direitos e, por fim, mortos. E como se tratam de gays, são considerados quase que culpados por serem tão maltratados, à exemplo do que ocorreu com os judeus na Segunda Guerra Mundial.

Mas por que é tão difícil ser gay no Brasil, se a Constituição qualifica as liberdades individuais como inalienáveis e tipifica o preconceito como crime?

Por que integrantes de religiões, e em nome dela, buscam desqualificar a condições gay como verdadeira apenas com base numa interpretação literal da Bíblia? São perguntas cujas respostas são variadas e escritas em lacunas, sempre com reticências.

O letrado professor e ativista gay, Bruno Mendozza, um dos organizadores da mega Parada de Mogi Guaçu, avalia que não é de um dia para o outro que a comunidade vai ser devidamente respeitada, e nem acredita que será algo pleno num futuro próximo.

“Podemos tomar como exemplo a luta das mulheres ou dos negros, que já tem um destaque muito maior na sociedade, porém ainda sofrendo com o preconceito. Já a luta LGBT é muito recente, e até dentro do próprio meio observamos uma certa resistência de algumas pessoas que tiveram uma criação muito heteronormativa, que não compreendem as lutas da causa.

Acredito que o trabalho vem sendo feito, e que as gerações futuras serão muito melhor instruídas”, observa.
Para Mendozza, um grande avanço vai acontecer quando a for aprovada a Lei que criminaliza a Homofobia, juntamente com a implantação de projetos sociais e educacionais que desmistifiquem os LGBT’s para as novas gerações.

Na opinião de Deco Ribeiro, também professor e uma das vozes mais potentes do universo gay no Estado de São Paulo, o Brasil em sim um país conservador.

E á um exemplo prosaico de como as coisas são feitas por aqui quando o assunto são os gays. “Na televisão, eles ficam nesse eterno beija/não beija na tentativa de esconder para a tradicional família brasileira o que na prática ela vê todos os dias na rua”, afirma.

E vai mais longe, ao pôr o dedo na ferida ao citar o campo político. “Estamos nos deblaterando com um dos Congressos mais conservadores da nossa recente história democrática, que apoia instituições que perseguem os gays na sua real dimensão humana, social, afetiva e emocional como ocorre com todos os demais brasileiros”, diz.

Para Ribeiro, o crescimento exponencial das igrejas evangélicas, além de outras religiões, cria um clima contrário às questões mais progressistas, como a liberdade sexual. “Não é à toa que o Brasil é o país que mais mata LGBT’s no mundo, praticamente um por dia”, ressalta.

Bruno Mendozza também destaca este perfil conservadores de diversas igrejas, cristãs ou não, contra os gays.

“Quando um tema começa a tomar espaço na discussão na sociedade, é natural que existam posicionamentos contrários. E as religiões em especial assumem esse papel, uma vez que a nossa sociedade tem um histórico de subordinação aos líderes religiosos. As igrejas evangélicas são muito mais fervorosas quando se posiciona contrária à comunidade LGBT. Só acho que acabam tomando apenas partes da Bíblia convenientes para si. Houve um tempo as igrejas foram contra os negros e as mulheres, e agora é a vez dos LGBT’s. É mais uma luta a ser vencida”, declara.

Ainda para Mendozza, é preciso investir em educação e em políticas públicas sérias e libertadoras nas escolas, em que o tema relacionado à sexualidade não seja um tabu e não haja tantos entraves de cunho religioso.

“Precisamos instruir nossas crianças e os nossos jovens sobre a necessidade do respeito, para que entendam que a homossexualidade é uma condição normal da humanidade”, avisa.

Deco Ribeiro firma posição constitucional quando o assunto diz respeito aos direitos, e o fato de a Constituição dizer que todos são iguais perante a lei impede quaisquer artifícios na contramão da igualdade.

“Não é necessário plebiscito ou qualquer outra consulta popular. Cumpre-se e pronto, pois está na Constituição. O que deve ser reformado é a escola para o respeito à diversidade, e não o contrário disso”, lista.

Por fim, a respeito do atual governo provisório, de Michel Temer, Ribeiro só tem críticas. “Primeiramente, Fora Temer. Esse governo é feito e apoiado por quem persegue os LGBT’s, e extinguiu a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que abrigava a Coordenadoria LGBT. Não vejo com bons olhos, não. Vai ser um período de retrocesso e de aumento da perseguição”, antecipa.

DA GAZETA ITAPIRENSE

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