GUAÇU VIRA CAPITAL DA HOMOFOBIA DA BAIXA MOGIANA

Mogi Guaçu é hoje a capital da homofobia da Baixa Mogiana. O campo livre ao preconceito de gênero é fértil. Isso significa que o respeito à identidade LGBT é circunstancial, quase nulo, deixando uma avenida inteira para que o preconceito se espraie por meio de comentários nebulosos nas redes sociais e pior, invada o território onde a equalização dos direitos de todos deveria ser unânime: o do poder público.

A Prefeitura Municipal não conta sequer com secretarias ou diretorias específicas que defendam os direitos humanos ou direitos das muitas minorias, das mulheres, dos negros ou do público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) principalmente.

Já a Câmara Municipal assemelha-se a um confessionário de ‘senhôras’ virgens a defender sacrossantas investiduras morais, anos luz do que deveria ser: uma Casa de Leis laica

Para quem é da minoria por identidade de gênero a coisa é mais difícil ainda, já que a laicidade das relações de Estado com os cidadãos parece ser esperança distante de ser contemplada em plagas guaçuanas. E por que isso acontece?

De acordo com o professor e ativista LGBT, Brunno Mendozza, há uma certa ignorância por parte das autoridades locais quanto ao que seria de fato uma política de gênero.

Segundo Mendozza, este desconhecimento sobre a identidade de gênero tem uma base pessoal, moral e familiar que conduz à miopia da necessidade de se trazer à luz políticas que englobem a diversidade sexual sobre o viés do respeito, da tolerância, dos direitos e convivência.

Bruno toca em um assunto ainda tabu por aqui, a ideologia de gênero, isto devido ao verniz sexista que alguns agentes da política tendem a encapsular o tema para evitar trazê-lo para o calor das discussão das opiniões.

“A ideologia de gênero nas escolas, por exemplo, consiste sobretudo em não classificar as crianças entre homens e mulheres, não dividi-las dessa maneira e não tratar atos como sendo masculinos ou femininos. É preciso dar às crianças o direito para que se desenvolvam sem limitações, sem que haja interferência do que é coisa de menino ou coisa de menina, para que no futuro possam ser tratadas como melhor lhe aprouver, mas hoje instruídas e protegidas pelos educadores para que esse direito seja assegurado”, comenta.

Isto posto, é necessário enfatizar que não é nada fácil chegar a este tempo de democracia plena, contudo, Mendozza acredita na educação como fiel da balança.

Por isso, ele debita sua crença  e esperança na solução pelos educadores e familiares, conjuntamente, para desmitificar a falsa noção de que a ideologia de gênero é uma fábrica de gays e que irá destruir a família tradicional ou a importância dos pais e mães.

Brunno Mendozza destaca que a sociedade tem o direito de debater o assunto livremente

“O mundo está mudando, queiram os políticos guaçuanos ou não. Por isso eu acredito que a maioria dos educadores que se formam hoje em dia está alinhada ao mundo em que todos vivemos. Acredito que partir de nós, professores, crianças, autoridades, além de especialistas, os futuros cidadãos respeitarão as diferenças dos indivíduos em todos os campos da vida”, explica Brunno.

PARA TODOS

Por meio de uma nota enxuta, a secretaria municipal de Comunicação dá a entender que a administração do atual governo prefere não mexer em vespeiros.

Explica que não existe um serviço específico de atendimento a homossexuais no âmbito do Poder Público Municipal. E que, neste caso, a Secretaria de Promoção Social também não dispõe de serviços de acolhimento e de direitos das pessoas LGBT.

Confirma também que todos os serviços prestados pela Pasta mencionada são extensivos a todos – independentemente de orientação sexual.

Quando questionada sobre como a Secretaria de Educação trabalha a questão LGBT nas escolas do município, a nota esclarece que o tema, quando abordado pelos alunos, é tratado naturalmente em sala de aula em conformidade com o Plano de Educação do Município aprovado pela Câmara Municipal.

A igualdade de direitos, por sua vez, é destaque no Plano Municipal de Educação (PME).

Na terceira diretriz do parágrafo 2, enfatiza a superação das desigualdades educacionais com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de preconceito e a promoção dos direitos humanos.

Prefeitura não possui serviços, secretarias ou diretorias exclusivos para minorias, direitos humanos ou público LGBT

No papel, sem dúvida, é um texto ‘lindo’ que norteia o trabalho de professores, pedagogos  e diretores das escolas. Trabalho árduo, sem dúvida, que por vezes se entrechoca com assuntos de difícil manejo como o da orientação sexual, que necessitam de preparação que seja maior e mais amplo do que o pessoal orientação religiosa dos agentes educacionais.

Desta forma, não é de estranhar que no escopo do PME nada ou pouquíssimas referências hajam sobre questões de gênero e a tão necessária e efetiva inclusão destas no sistema educacional. O que se percebe é uma possível tentativa de varrer o tema para debaixo do tapete, ou tapetão, já que na Câmara, quando da aprovação do documento, a cruzada religiosa jogou pesado para escarnecer da ciência e dos avanços da medicina, biologia, psiquiatria, psicologia, educação e relações sociais e antropológicas.

E porque disso?

BUNKER DO CONSERVADORISMO

O atraso colossal que impede quaisquer debates com vistas ao avanço em relação ao tema LGBT na sociedade guaçuana, a partir do ensino em especial, se deve quase que exclusivamente à  Câmara de vereadores.

Formada por vereadores mais preocupados em realizar cruzadas pretensamente cristãs, hora a defender interpretações particularíssimas da bíblia em relação ao mundo laico; hora a ser escudo de determinadas denominações religiosas, a nossa Câmara não reflete de fato a pluralidade de pensamentos e das opiniões como deveria. Isto porque é uma Câmara intelectualmente limitada.

Com relação à diversidade de gênero, os discursos parecem ser proferidos de um púlpito, revestidos de um moralismo tacanho e tosco. Pior quando se é para ‘partir para o vamos ver’.

Quaisquer medidas que incluam pessoas LGBT são praticamente rechaçadas, como por exemplo, a Lei que contemple o Dia do Orgulho Gay, jogada para as calendas.

A esperança de que um vereador, como Carlos do Kapa por exemplo, possa defender a causa LGBT se esmorona a cada dia, uma quimera.

Principalmente diante do sofisma de que ele defende, Carlos, isso sim, a causa animal – talvez se esquecendo do compromisso maior que deve ter para com o bicho Homem.

Câmara do Guaçu é hoje o templo do conservadorismo municipal, uma espécie de catedral do cristianismo papai-mamãe

Outro vereador, este também iniciante na nobre arte da vereança, Natalino Tony Silva, filiado a um partido conhecido por Rede, assomou à tribuna para metralhar supostas ações de alguns participantes da última Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

Com base em algumas filmagens e fotos, Silva se equilibrou em um discurso trôpego no fio da navalha, entre o quase preconceito e o moralismo sórdido, simplesmente para dizer que  estava ali para defender a sua igreja, a católica apostólica romana.

Enfim, para Natalino, a igreja que abriga cardeais, bispos e padres pedófilos fora vilipendiada, desrespeitada e atacada por certos participantes da Parada paulistana. Assemelhou-se, desta forma, a Pedro, o Eremita, com os seus notáveis perdigotos do compêndio guaçuano do óbvio ululante. Nada mais que isso.

REPÚDIO
   
Ainda na Câmara, ações esquisitas como a do vereador Luciano Firmino Vieira, o Luciano da Saúde (PP), de proferir um repúdio ao governo do Estado por liberar, através da Secretaria de Cultura do Estado, verbas para a realização da Parada do Orgulho LGBT no Guaçu entrou para os anais da Casa como um capítulo infeliz de um agente político.
Na ocasião, Luciano, que tem sim uma bonita folha de bons e relevantes serviços prestados à população guaçuana, caiu na fácil tentação de argumentar que o recurso poderia ter sido melhor utilizado para a aquisição de remédios.

A pequena e fácil demagogia é tão na moda hoje em dia que o próprio vereador se esqueceu que também foi alvo de intolerantes.

Anos atrás, mais exatamente em 2012, Vieira foi um dos artífices da Marcha para Jesus. O evento revestiu-se de galhardia, mas acabou criticado por muitos por supostamente contar com o ‘apoio’ da Prefeitura Municipal, isso na administração do Dr. Paulinho.

Na ocasião, os comentários preconceituosos fora em direção à contratação para a apresentação do gospel star, Thales Roberto, então um dos cachês mais altos da música gospel.

Luciano da Saúde, vereador proferiu repúdio contra verba destinada á realização da Parada LGBT: “não sou homofóbico”, ressaltou o parlamentar

Porém, retornando ao assunto do repúdio, Luciano Vieira nega veementemente que seja homofóbico, e quem o  conhece sabe disso, pois como ser humano sempre se pautou pela paciência, respeito e tranquilidade às pessoas. Não à toa está em segundo mandato e possui um enorme eleitorado.
 
E por meio do seu assessor parlamentar, o pastor Jorge Pacobello, confirmou que sabe que o estado é laico, porém é cristão antes de tudo.

“E o cristianismo não aconselha atos de homossexualidade. O cristianismo aconselha o amor a todas as pessoas, independentemente de suas práticas. Considero, portanto, a homossexualidade uma prática, nada mais que isso. O que disse na tribuna foi que, num tempo de crises financeiras como vivemos, em todas as instâncias da sociedade, os valores destinados a qualquer evento que defenda apenas um grupo de pessoas, ainda que considerável em número.
Estes recursos deveriam ser remanejados, e é possível o remanejamento de orçamento, ainda que as verbas estejam destinadas a um tipo de atividade. Isso se chama emenda parlamentar para saúde, que sofre tanto por falta de orçamento, por exemplo”, mencionou.


SEM AVANÇO

Natalino Tony Silva: como Pedro, o Eremita, o vereador bradou que “vou sempre defender minha igreja” Deco Ribeiro é enfático: “não vejo avanços”

Deco Ribeiro é cientista social, ativista LGBT e professor. Mas é cético com relação aos pequenos avanços que gays, lésbicas e transgêneros supostamente obtiveram nos últimos anos.

“Apesar de esferas superiores do Judiciário reconhecerem mais o direito das minorias, o problema está na ponta, ou seja, nas Delegacias de Polícia, onde o público LGBT ainda é pouco compreendido e algumas vezes atendido por pessoas mal preparadas para receber o cidadão fora do padrão heterormativos”, salienta.

Para Ribeiro, é essencial capacitar amplamente os funcionários, já que é na Delegacia que se acolhem denúncias e que se inicia o respeito aos direitos.

“Eu creio que é preciso uma mudança de cultura e de valores com vistas a se evitar o preconceito do agente público, além de investir em denúncias e registros online, pela internet”, destaca.

Deco defende a desmilitarização da PM como uma boa medida, mas ao mesmo tempo que se invista massivamente na corporação como artífice fundamental de proteção ao cidadão.

“Outra medida fundamental é a criminalização da homofobia, o que ainda não temos. Tipificar a homofobia como crime definitivamente geraria registros e assim não teríamos mais que contar com a boa vontade de terceiros, justamente na ocasião do boletim de ocorrência”, finaliza.

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