GUAÇU: A EXTRAVAGANTE CIDADE QUE TRATA MORADOR DE RUA COMO POMBOS

Mogi Guaçu, como tantas outras cidades brasileiras, é o resultado da interação de pessoas: dos moradores locais com os que vieram de fora, e juntos construíram um município progressista. Certo?

Nem tanto.

Como acontece em milhares de cidades do Brasil, extravagâncias ocorrem por aqui. E como acolá são consideradas normais. Por exemplo, autoridade tergiversar sobre gente humana (assim mesmo, humana) quase que como pombos.

Explico.

Dias atrás, certa reportagem trazia nas manchetes algo como Moradores de Rua ‘Invadem’ Centro da Cidade.

É algo que espanta.

Espanta tanto que, obviamente, invadir veio com aspas no verbo.

Talvez por considerar anormal naquilo que seria normal, ou seja, não abordar a suposta invasão como tal, mas sim como ocupação de praças, ruas e avenidas, justamente pelo simples fato de serem logradouros públicos que são.

E espaço público não se invade frisa-se, ocupa-se e faz-se dele espaço-cidadão, seja como for. Posto que está claro.

Moradores de rua depois de ganharem um ajudinha das pessoas de bem

Contudo, entretanto e noves fora…extravagante concepção de mundo saltou da reportagem quando uma delegada, fora do exercício do cargo diga-se, quis alertar a nossa população de bem.

E o alerta foi para que não contribuísse com esmolas, pois esta prática seria como que um incentivo aos vagabundos, assim considerados por muito.

O alerta foi mais um daqueles momentos mágicos que só o Guaçu pode produzir, e poderia ser traduzido como: “POR FAVOR..NÃO ALIMENTE OS POMBOS”.

Sim, esta poderia ser a tradução das palavras da delegada, porque aos pombos que as placas alertam para não dar comida em virtude de inúmeras doenças.

Não é a primeira vez que a delegada ilustra reportagem em que os personagens centrais são os pombos, ops, os moradores de rua.

Em outra situação, a delegada esteve na linha de frente de uma ação tênue entre a higienista e a trabalhista, justamente por propiciar suposto trabalho a quem quisesse ‘catar’ maçã em Santa Catarina.

Aos olhos do povo trabalhador, aquele que acha que leva o Brasil nas costas, era algo fabuloso. Ensinava a pescar e não dar o peixe!!!

Pombos quando ganharam uma chance de serem pessoas de bem: catar maçã em SC e deixar limpas as nossas ruas

No entanto, a viagem, com tudo pago, ocorreu sim…mas, antes de partires os ‘trabalhadores’ passaram por uma completa revista no momento do embarque.

Estas coisas, pois não há outra palavra para mencionar, nos faz remeter que cada um deve ficar no seu quadrado. Isto é: quando pessoas não capacitadas a certas áreas passam a dar pitacos em outras, quase sempre fazem o mingau desandar.

Vale lembrar que moradores de rua são de pertinência do município, e de todos nós, com certeza. Por isso, a questão deve ser tratada como política pública de grande abrangência.

É também de alçada da Segurança Pública. Mas ainda o é da pasta da saúde, da promoção social, do governo e também da interação humana. Requer atendimento multifatorial que envolva médicos, psicólogos, religião e a comunidade.

Sem essa visão mais abrangente será apenas um problema que se varre para debaixo do tapete, justamente para o deleite de pessoas mentecaptas que se travestem de liberais na internet; para achincalhar o ser humano esfarrapado, considerado preguiçoso: o morador de rua.

As palavras a Delegada, apesar de parecerem cautelosas, repercutem aqui no contexto provinciano como fruto da mentalidade atual do país, em que o mais fraco – em vez de ser amparado – deve ser olhado com preocupação e até com medo.

Sintonizam-se com os Nazarenos da vida real ou cibernéticos.

Para quem não se lembra, Nazareno era um personagem de Chico Anysio… que casado com uma mulher tão feia, que de tão feia o marido a destratava em público. E depois olhava para a câmera e perguntava ao telespectador: ”Está com dó? Pega pra você!”.

Os Nazarenos atuais, estes histriônicos de muitos grupos fascistóides do facebook, são capazes de compactuar com a mensagem de que os moradores de rua são mesmo vagabundos, uns pombos que trazem doenças se nós os alimentarmos com esmolas.

Enfim, a extravagância excêntrica mencionada sobre os moradores de rua faz lembrar Galvão Bueno, que certa vez disse sobre Pelé: “foi um gênio do futebol, mas quando abre a boca para falar é pior do que jogador de várzea”.  

 

Nos próximos artigos vamos tratar de outras extravagâncias guaçuanas:

– Escola Sem Partido e o seu vestuto autor

– Lei do Silêncio: por que as forças de segurança não atendem a população?

Bira Mariano

Formado em Jornalismo pela Unaerp - Universidade de Ribeirão Preto, com módulos de pós-graduação em Jornalismo On Line pela Fundação Cásper Líbero. Trabalha na área desde 1995 e possui alguns sites, dentre eles o Jornalístico e o Animal e Companhia.

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