GUAÇU E REGIÃO: ORIENTAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS ESTADUAIS AINDA É TABU

Falar de sexo sempre foi tabu. Nas escolas, então, as variáveis que influem sobre a decisão do professor, o profissional capacitado para uma abordagem esclarecedora, de ensinar os conteúdos previstos no PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), esbarra em questões religiosas, pessoais e familiares, muitas vezes de cunho preconceituoso, obscurantista e conservador.

Mas a escola pública avança, e dá passos lentos em busca de uma orientação sexual universalista, que incluem prevenção às DSTs, gravidez precoce e métodos contraceptivos para uma decisão clara sobre quando e como fazer sexo – na adolescência.

Um dos projetos levadas à pratica escolar se chama Vale Sonhar, da Secretaria Estadual da Educação, que incluem dinâmicas, vivências e oficinas para contribuir à educação sexual mais libertadora.

“Se por um lado o sexo na adolescência é natural, a prevenção é aprendida. E, para colocar em prática o que foi aprendido, a motivação é fundamental”, explica Ana Cristina Carvalho, professora coordenadora do núcleo de Ciências e Biologia da Diretoria de Ensino da Região de Mogi Mirim, que concedeu entrevista para a Gazeta Itapirense, da cidade de Itapira.

Segundo ela, a sexualidade na sala de aula é considerada como tabu até mesmo pelos alunos, que, apesar se postarem de ‘sabidinhos’ acerca do tema, nem sempre possuem o estofo necessário para tomar as atitudes corretas. “O resultado, como se vê, é um número alarmante de gravidez na adolescência, o que comprova que, sem orientação, o pior sempre acontece”, adverte.

De acordo com Ana Cristina, quando o Vale Sonhar foi colocado em prática, na região da DRE de Mogi, o número de adolescentes grávidas era considerável, incluindo-se o município de Itapira.
“Após três anos, colhemos resultados positivos da atuação do professores, com redução acima de 85% de novos casos de meninas grávidas”, adianta.

O público alvo do Vale Sonhar são alunos dos primeiros anos do ensino médio. Os conteúdos são facilitados por professores da área de Ciências, monitorados pelos coordenadores do núcleo pedagógico (área de Biologia) da DRE-Mogi. As capacitações do professores ocorrem no final do ano, e a grande sacada com os alunos é não julgar, mas motivar.

A estratégia é a motivação, ‘sonhar’ é uma palavra bastante utilizada, pois os educadores chegaram à conclusão de que o conhecimento puro e simples dos métodos de contracepção não eram o bastante para evitar que os alunos ‘fizessem aquilo’ sem plena conscientização.

“Abordamos ferramentas da educação preventiva, informando que a adolescência não é o melhor momento para se ter um filho. Daí a importância de se conhecer o processo da reprodução, associado às práticas sexuais de risco. Juntos, buscamos desenvolver uma orientação que seja moderna e com respeito a todos, sem avançar sinais. Para isto, lançamos mão de oficinas, dinâmicas e outras práticas que viabilizem o ensinamento”, conta a professora coordenadora.

Em suma, o projeto trabalha com três eixos, segundo informou uma professora que ministra o conteúdo numa escola estadual de Itapira: Oficina 1 (Identificação do Sonho), Oficina 2 (Nem toda relação sexual engravida), Oficina 3 (Engravidar é uma escolha). A capacitação dos agentes tem carga horária total de 24 horas total. Estes agentes se transformam em facilitadores.

A reportagem conversou com uma professora de escola estadual, que falou sob o meio do anonimato, e confidenciou que tratar de sexo na escola, atualmente, gera controvérsias, mas é importante não varrer o assunto para debaixo do tapete.

“Às vezes, receio que o assunto não seja bem assimilado, e que o tema se transforme em polêmica. Por isso é que seguimos os parâmetros estabelecidos pela Educação de maneira fidedigna”, esclareceu.

Sobre o Vale Sonhar, a professora avaliou que a proposta é ‘revolucionária’, e que as dinâmicas e oficinas ajudam bastante no sentido de fazer entender a importância do sexo no momento certo.

“Mas falta avançar sobre as questões de gênero, e outros desafios que, por enquanto, o pavor de muitos impede de levar adiante”, finalizou.

 

Dificuldades de falar em casa

Falar de sexo dentro de casa é quase um pecado. Quando há meninas adolescentes, então, a dificuldade só aumenta, em especial para os homens, os pais, que não querem ver que suas princesas cresceram e se transformaram em mulheres, com livre arbítrio e todas as mudanças no corpo que a natureza as dotou, e que eles relutam em ver.

Ariele Amaral de Andrade está grávida de sete meses. A gravidez precoce veio com pouco tempo de namoro. A solução para apaziguar a ‘vergonha social’ foi casar.

Ela sentiu na pele as dificuldades de engravidar tão cedo. Teve que parar os estudos e só vai retomá-los pelo supletivo. Foi julgada, maltratada e jogada ao preconceito da sociedade, sem saber se defender. Aprendeu na marra.
Por isso mesmo, é defensora ferrenha de uma orientação sexual ampla, nas escolas, que lance luzes sobre a sexualidade neste período de turbulências e hormônios a mil.

“Não estou julgando ninguém, e nem colocando a culpa nos outros. Mas, nunca falaram sobre isso comigo. Acho que, se tivesse conversado comigo, quando mais nova, me levado ao ginecologista para tomar anticoncepcional, o resultado poderia ser diferente”, avalia.

Letícia Cristina Oliveira Ferreira, 16 anos, também defende o projeto de orientação sobre sexualidade na adolescência. Para ela, toda informação é importante para tomar decisões mais corretas.

“As meninas que engravidam sofrem preconceito da sociedade e até da família”, afirmou, sem deixar de declarar que, em sua casa, é a mãe que a compreende e aceita falar sobre suas mudanças. “Meu pai tem ciúmes, e nem que falar sobre”, afirmou.

A bela Paloma Gabriele Bizarri Negri, também de 16 anos, cursa o ensino médio e sua escola propicia discussões sérias sobre o tema desta reportagem.

Segundo a adolescente, são estas abordagens que lhe ajudam a ser mais consciente para fazer escolhas que não vão prejudicá-las, e nem chatear os pais.

“As meninas podem engravidar a qualquer momento. O projeto é interessante e vale a pena participar. Se a família não falar, a escola não pode se omitir”, comentou assim, de forma incisiva.

Misael de Oliveira Francisco, 20 anos, concorda com a projeto do governo sobre questões ligadas à sexualidade. “É um fato que a família não fala, abertamente, sobre sexo, dentro de casa”, diz. “São poucos os pais que têm consciência de discutir, principalmente com as filhas, algo que é da vida. E os jovens são muito mais do que curiosos. Quando acontece o pior, não tem como chorar o leite derramado”, assinala.

MATÉRIA ORIGINALMENTE PUBLICADA NO JORNAL GAZETA ITAPIRENSE, DE ITAPIRA

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