EXEMPLO: IDOSO COLECIONA LIVROS E OS DOA AOS ADOLESCENTES

Diante de um mar de trevas culturais e de raciocínio pequeno deste Brasil do pós golpe, os exemplos de dignidade, solidariedade e motivação estimulam a todos nós.

É o que busca realizar, há pelo menos 15 anos, o aposentado Silas Gonçalves Menestrini, de 71 anos, morador do Alto dos Ypês, a quem a conhecemos quase sem querer em um ponto de ônibus da Avenida 9 de abril, numa destas coincidências do cotidiano da vida.

A rotina miúda e sem grandes destaques do aposentado esconde uma pessoa de coração maior do que ela própria. “Não vejo a vida senão com a compaixão. Entender as demais pessoas, não passar recibo e não julgar é uma receita infalível para o coração”, afirma o senhor de voz manda e baixa.

Seo Ditinho, como é conhecido devido ao apelido que herdou por causa do pai, o Benedito, o Dito; não deixa passar em branco uma oportunidade de ser útil. Mas nem sempre foi assim.

“Há 18 anos tive um infarto e quase morri. Era brigão, discutia com todo mundo. Achava que eu era o correto e as demais pessoas erradas. Foi quando tomei uma decisão. Iria mudar”, relatou o homem franzino.

As mudanças foram ocorrendo aos poucos, mas decisivas. Primeiro fez uma faxina das coisas que não lhe serviam mais.

“Doei peças de roupas que não usava, além dos sapatos e comida que ficava em estoque por longos dias. Mudei a minha rotina. Passei a acordar cedo, caminhar e emagrecer. Pesava 109 quilos e hoje estou com 78. Adotei um gato e um cachorro e parei de fumar e beber. Mas o pior vício é quem fala demais. Realmente, que abre a boca constantemente dá bom dia a macaco”, exclama.

No entanto, a grande mudança veio com os livros.

“Eu não tinha hábito de ler, a não ser jornais para ver as notícias policiais. Era como um urubu: adorava aquelas reportagens de acidente, morte e coisas do gênero. Até que caiu na minha mão um exemplar de Dom Casmurro, que era do meu neto. Aquele enredo bem construído por Machado de Assis, a história da Capitu e do Bentinho foi me cativando”, relembra.

Desde Dom Casmurro, outros títulos foram sendo devorados, não apenas da literatura nacional, mas também internacional. “Leio de tudo, não tenho preconceito. Pode ser de religião, infantil, suspense ou best seller. Não importa, eu gosto é de ler pelo prazer”, confirma.

Com o passar dos anos, e o acúmulo de livros em casa, muitos deles semi novos, veio a ideia de estimular a leitura nos adolescentes. Ele sentiu que era uma oportunidade de contribuir para a melhoria da capacidade intelectual de meninas e meninos.

“Então, comecei a doar os livros. Primeiro me aproximando deles sem quaisquer interesses de me sentir o maioral. Depois falando sobre os títulos e abordando a história no cotidiano da vida deles. O livro em si eu entrego na casa, na presença dos ´pais”, destacou.

Seo Ditinho não sabe quantos livros já doou, mas tem de cabeça que passa dos 800 nestes anos todos.

“Eu tento ver o livro que melhor se encaixa para cada pessoa. Contudo, é o livro que escolhe a gente. E assim, busco disseminar a cultura”, enfatizou.

FOTO: arquivo pessoal. Foto enviada por email. Seo Ditinho na biblioteca da cidade de Ilha Solteira, onde mora um dos filhos, em viagem ocorrida em 2008.

Bira Mariano

Formado em Jornalismo pela Unaerp - Universidade de Ribeirão Preto, com módulos de pós-graduação em Jornalismo On Line pela Fundação Cásper Líbero. Trabalha na área desde 1995 e possui alguns sites, dentre eles o Jornalístico e o Animal e Companhia.

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