ESPECIAL: MÃES TAMBÉM ERRAM E SOFREM

Entre os anos 70 e 80, por mais de uma década, o cartum The Super Mãe, de Ziraldo, estampou na revista Claudia um conflito de gerações bem humorado: o da matrona que teimava em ver o filho barbado como eterna criança.

Era a imagem da mulher que se deliciava no papel único do instinto maternal, protetora e cega, que não enxergava o crescimento do rebento a um palmo do seu nariz. Mas, The Super Mãe era feliz em sua completa alienação.

Os anos se passaram e o instinto maternal ganhou novas roupagens, agora edulcorado pela publicidade da mulher que trabalha, mas que não aderiu à roupagem feminista definitivamente, abrindo mão do direito de ser feliz sendo simplesmente mulher.

A roupagem modernosa de mulherzinha é tão antiquada quanto a The Super Mãe, que permaneceu mulherzona. Enquanto o cartum simbolizava a mulher gorda e de seios fartos (para prover o eterno bebê), a mulher atual é embalada em perfumes, cremes e roupas de estilo.

É cheirosa, magra e se desdobra em mil para garantir ao filhão que não passe apuros ao longo da vida, mesmo que tenha que fazer jornada tripla, fique exausta, chore pelos cantos, mas permaneça bonita e cheirosa. É assim que a cultura mediana exige.

Esta máscara esconde o mito da mulher que não pode errar. Contudo, as mães erram bastante porque são de carne osso. E o bonito da maternidade é a sua sublimidade humana, para a construção do paraíso na terra.

Construção

Para a psicóloga Flávia Toledo Lima, a maternidade é uma construção social e ser mãe tem particularidades em diferentes culturas e momentos históricos, inclusive a brasileira. “Algumas vezes a maternidade é compulsória e uma imposição, que não leva em conta o desejo da mulher de ser outra coisa que não mãe”, esclarece.

Segundo Flávia, isto não exclui o fato de que a mãe não possua instinto materno, que seria próprio da necessidade de conservação da vida. “No entanto, a força desse instinto não se fixa por igual em todas as mulheres, e algumas o possuem em maior intensidade que outras, que procuram outros interesses”, adverte.

Daniele Cristina de Toledo é operadora de caixa das Lojas Cem e tem 33 anos. Por anos refutou a maternidade, até que chegou Isabela, uma menina de 8 meses.

“Foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Estou amando e a doação que tenho hoje é algo que nunca senti em toda a minha vida. É puro amor”, disse toda empolgada.

Para a professora Maria Aparecida de Melo Setti, que hoje cuida do lar, ser mãe é como tronco que dá bons frutos. “A mulher que não tem filhos é como uma árvore seca”, destaca.
E como árvore que viceja, Maria Aparecida fez da sua vida uma doação. Deu à filha, Letícia, de 24 anos, o que não pôde ter: uma faculdade e a pós-graduação. “Mas valeu tudo a pena. Hoje ela é independente e está pronta para a vida”, mencionou com lágrimas de emoção nos olhos.

“Maternidade é questão de hierarquia”

 

A facilitadora de constelação sistêmica familiar, escritora e pós-graduada em terapias vibracioniais pela Unifran, Sissi Semprini, contempla a maternidade como uma questão de hierarquia.

“Quem dá a vida simplesmente deu tudo para a outra pessoa, e não precisa dar mais nada”, explica a especialista em Constelação Familiar, uma ciência que leva em consideração a influência dos antepassados na vida das pessoas, em especial de pais e filhos.

Sissi Semprini,  que atua em Mogi Guaçu no Espaço Sissi Graal, na Vila Paraíso, explica que é importante ter respeito e honrar a maternidade – assim como a paternidade – pois a felicidade, as conquistas e as glórias que uma pessoa obtém em sua trajetória são fruto de estarem vivas.

“Mas isso não significa que as mães devem ser protetoras ao extremos, e os filhos submissos. As mães precisam ser amorosas e dotar os filhos de independência, permutando uma consciência ancestral equilibrada”, afirma.

Já para a psicóloga Flávia Toledo Lima, o grande senão da maternidade é o mito da grande provedora e da super mulher, que gera frustração e sofrimento às mães e aos filhos, justamente porque ambos descobrirão que a realidade é muito distante da idealização do amor materno, e da própria relação mãe-bebê.

(da Gazeta Itapirense)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *