DEPOIMENTOS: A DOR DE PERDER UM BEBÊ

“Foi a pior sensação da minha vida. É um sentimento que não tem tradução e é impossível de explicar. De repente, tudo perde o sentido. É como agarrar o ar com as mãos”.

A menção é do analista de sistemas e professor universitário Rogério Souza, que perdeu há 12 anos a primeira filha, Camila, a poucos dias do parto. “O que veio depois foi uma onda de revolta já superada, dos porquês que ainda não têm resposta por completo”, cita.

A expectativa e os sonhos de ter a filha tão esperada nos braços foram tragicamente substituída por um escuro de ódio que parecia não ter fim. Vieram o velório de uma hora aproximadamente, com o pequeno corpo sendo sepultado em seguida. A vida precisava seguir em frente.

Foram o que Souza e a esposa, Silvia, fizeram. Hoje, têm um filho lindo, de 9 anos, chamado Gabriel, um anjo de mensagens boas.

‘Perder’ o filho, ou a filha, ainda bem tenro, recém-nascido ou natimorto, não é uma coisa fácil. É uma experiência única e para poucos fortes. Para pessoas de ombros aguerridos, que souberam honrar a condição de ser pai e mãe mesmo sem ter por perto o grande tesouro das suas vidas. Aquela flor que não cresceu, mas deixou o doce perfume pelo ar, ainda sentido, e sempre reconhecido.

“Penso nela todos os dias, sem aqueles sentimentos da época. Fico pensando como seria hoje em dia com 12 anos”, relata Rogério com uma digressão emotiva na voz, sem dor, compassivo.

NA HORA H

Os avanços da medicina e do atendimento pré-natal fizeram com que os óbitos de crianças se transformassem em traço nas estatísticas de hospitais de referência, como o Municipal de Itapira (HMI), considerado pela ONU como hospital amigo da criança.

Não é só isso. Aqui em Itapira, as mães passam por um número mínimo de ultrassom e possuem um acompanhamento rígido com os médicos.

As UBS’s contam com equipes multidisciplinares com profissionais de áreas diversas para um atendimento global. As gestantes ainda têm acesso à maternidade do HMI a poucos meses do parto; e o controle de todas as etapas da gestão é rigoroso.

Mas por que os bebês morrem? A enfermeira Andréia Garcia Camarinha explica que os casos de óbito são sempre precedidos de um histórico de complicação, justamente o que pode levar à morte.

“Criança é como passarinho, cujo estado orgânico pode mudar de uma hora para outra. Por isso que preconizamos que todas façam o pré-natal e tenham o acompanhamento médico e dos grupos de apoio nas UBS’s”, cita a enfermeira.
De acordo com Andreia, toda notícia de um óbito é desgastante e envolvida em uma carga emocional muito forte. A de crianças é  exponencialmente aumentada em virtude de todo um ideal se findar naquele momento.

“Quando é um parto natural, a mãe fica sismada porque o filho não chorou, e fica acabrunhada até que lhe seja informada do que ocorreu”, afirmou.

A informação do óbito propriamente dita é feita pela enfermagem acompanhada de um psicólogo. É um momento difícil, em que se desfaz sonhos e a realidade cai como concreto para os pais.

“As lágrimas são densas, pesadas e sofridas. Alguns se dilaceram. Outros sofrem calados e poucos se deixam levar pela indiferença. São emoções que o psicólogo sabe manejar para atender caso a caso”, afirma Andréia.

Rogério e a esposa participaram de sessões de psicoterapia e psiquiatria. Por meses carregaram uma culpa indefinida.

“Não sabíamos porque nos culpávamos. Achávamos que poderíamos ter feito mais, contudo, chegamos à conclusão de que fizemos muito e isto se chama amor. E o amor não acaba, apenas sabe esperar e aguardar, pois o tempo de Deus soube nos dar uma nova chance de recomeço, que se chama Gabriel”, argumentou o analista de sistema.

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