AS DEMISSÕES NO SAMU E O SHOW DA INTOLERÂNCIA

A Gazeta publicou reportagem no dia 14 de fevereiro informando que a técnica de enfermagem Vanessa Gomes, e um motorista, ambos do Samu, foram sumariamente demitidos (com justa causa) das suas funções. A decisão partiu por determinação do Consorcio 8 de Abril, o órgão que ‘manda’ no Samu da Baixa Mogiana.

O motivo da degola foi que ambos foram flagrados usando uma ambulância para fins pessoais. Vanessa pegou seu filho numa escola do BNH e o transportou à sua casa.

Os notáveis da honestidade do 8 de Abril abriram uma sindicância e concluíram que Vanessa e o motorista infringiram as regras do Samu.

Coube do coordenador do Samu, Vagner Cezaroni, outro baluarte da ética guaçuana, o mister de mandar os colegas pro olho da rua. “Foi uma pena, pois eram dois bons funcionários. Mas regras são regras”, declarou a la Pôncio Pilatos, ao final da reportagem da Gazeta, lavando as mãos e se ajustando ao que determina à sua nobre missão de defender o que está escrito.

O caso ganhou repercussão através de uma página do Facebook chamada ‘Fala Sério, Guaçu’.

Nesta página a demissão foi celebrada por outros baluartes da moral como exemplo de ética. Mas, porém, contundo, entretanto e todavia, a decisão também muito criticada por seres humanos que se condoeram com o final trágico de mais uma pena de talião, essencialmente contra quem não pode fazer muita coisa diante da exacerbação da opinião pública e publicada. Centenas ou talvez milhares concluíram que fora um exagero. E foi mesmo!

A demissão foi o resultado da retroalimentação entre mídia e a opinião de justiceiros das redes sociais, estes últimos ademais sedentos pelo clima persecutório e exprobração contra alvos que acreditam ser nocivos ao meio social e aos ditos cidadãos de bem – uma expressão tosca de gente que não tem muito estofo intelectual.

Vale notar que muitos dos cidadãos de bem talvez não resistiriam a um exame acurado de suas próprias práticas morais, porém, propiciam um cenário, aqui no Guaçu, de ódio que debela o diálogo ao impor visões particularistas de um mundo em que opiniões diferentes não mais se ‘ganham’ pelas ideias.

É necessário exterminá-las. E aqui, exterminar é sinônimo de morte…literalmente.

Neste clima de retroalimentação odiento, que ganha corpo como uma bactéria, não existe final feliz do bom senso.

O saciar pelo justiciamento, através do linchamento (primeiro no meio online, através de páginas fascistas do Facebook), e logo depois pelo linchamento simplesmente, é fruto do adoecimento da sociedade brasileira após o golpe de 2016. E agora vai contaminando os grotões das províncias do interior. Na Itália fascista de Mussolini aconteceu o mesmo. Assim também no nazismo de Hitler.

Quem sabe não seja a mesma força motriz ideológica deste caso em Mogi Guaçu, que levou à demissão da Vanessa e do motorista do Samu ante o escândalo promovido pelas opiniões medonhas da página na rede social – e publicada como fim do mundo em jornal.

Os paroquianos destas plagas guaçuanas, os sedentos pela perseguição, em especial no Facebook, ainda promoverão (a continuarem agindo como agem) algum assassinato de fato. É só uma questão de tempo. Alguém duvida?

Abaixo seguem três exemplos de como o ódio e a retroalimentação de pseudo-escândalos promoveram barbaridades contra vidas de pessoas. É para todos nós pensarmos!

O EXERCÍCIO CONTINUADO DA CRUELDADE

De nada adiantaram os laudos provando o contrário. Três médicos foram condenados a penas de 14 a 18 anos de reclusão. Em 2014 foram presos no Presídio de Poços, acusados injustamente de comandarem uma Máfia de Venda de Órgãos. A partir daí sua vida foi transformada em um inferno. O médico Cláudio Fernandes foi preso três vezes, passou dois meses em um presídio em Três Corações. Tem quatro filhos e uma esposa médica. Para visitar o marido, a esposa tinha que tirar toda a roupa e passar por revista humilhante.
A perseguição aos médicos prosseguiu no próprio Presídio.

A perseguição foi tanta que, temendo pela própria vida, os médicos pediram, para serem transferidos para Três Corações. Narciso exigiu imediatamente a volta dos prisioneiros a Poços.
Foi tal o assédio sobre o diretor do Presídio de Poços, Adriano Souza Silva, visando retaliar os médicos – que este entrou com uma representação contra o juiz do caso junto ao CNJ. Como represália, o juiz Narciso (uma espécie de Sérgio Moro mineiro) denunciou o diretor adjunto Baruk Francisco Pinto como responsável pela “remoção de órgãos e tecidos”, incluindo no inquérito da suposta “máfia dos transplantes”. O caso foi constantemente usado pela mídia televisa e jornalística local, expondo biografias e resultando desestruturação financeira de famílias e suicídios.
(LUIZ NASSIF – http://jornalggn.com.br/noticia/o-xadrez-do-%E2%80%9Cnosso%E2%80%9D-sergio-moro-e-a-mafia-dos-transplantes)

Mulher foi espancada até a morte no Guarujá por causa de página no Facebook

Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, moradora do Guarujá, litoral paulista, morreu na manhã de 5 de fevereiro por causa de boatos e informações mal produzidas espalhados por uma rede social do Facebook. Ela havia sido acusada injustamente de sequestro de crianças na região. A investigação policial aponta para o rumor como motivo do crime e afirma que não havia nenhum boletim de ocorrência sobre sequestro de menores no Guarujá. Fabiane foi amarrada, espancada e arrastada. Teve o rosto desfigurado e morreu sem socorro.

(http://noticias.r7.com/sao-paulo/mulher-foi-espancada-ate-a-morte-no-guaruja-por-causa-de-boato-na-internet-07052014)

ESCOLA BASE

O caso “Escola Base” foi herdeira direta da campanha do impeachment contra o ex-presidente Fernando Collor. Depois que a campanha se esgotou, criou-se um vácuo nos leitores. Estavam todos viciados em notícias catárticas, no escatológico, do mesmo modo que viciados em morfina. A cada dia a mídia se obrigava a buscar manchetes e temas que substituíssem o lixo da campanha do impeachment. Foi nesse contexto que surgiu o episódio da Escola Base.
A imprensa ecoou em coro as acusações.

Pouco espaço era dado aos acusados. Eram eles Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada , donos da Escola Base; Maria  Cristina Franca, professora da escola, acusada de abusar sexualmente de uma criança de 4 anos, coleguinha de seu filho na escola; Saulo e Mara da Costa Nunes, perueiros da escola, acusado de abusar das crianças dentro da Kombi; e Maurício Alvarenga e sua mulher Paula Milhin, sócia e professora, acusados de participarem do esquema todo. O episódio me deu a certeza de que, a exemplo dos repórteres, delegados e promotores tendem a supervalorizar os casos dos quais se incumbem, obrigando a um cuidado. 
(Luiz Nassif  e Alex Ribeiro: http://jornalggn.com.br/noticia/o-caso-escola-base-20-anos-depois

 

 

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