A DURA VIDA DOS VELHOS NO BRASIL

Chegar à terceira idade em boas condições de saúde e de mente é o que todo mundo deseja. Ter disposição e uma poupança para curtir a vida ao lado dos familiares e dos netinhos é pensamento número um de quem vai envelhecendo. Rir, passear e ser amado. Quem não quer isso para si?

Contudo, nem sempre é o que acontece. Milhões de idosos em todo o mundo, e também no Brasil, passam um verdadeiro calvário no final da vida. Quando não são excluídos da vida familiar, deixados num canto como se não valesse mais dada, se deparam com os maus tratos, quando não abandonados. Ser velho, em solo brazuca, convenhamos, não é nada fácil.

Os problemas de saúde, naturais deste terço da vida, são inerentes aos idosos do mundo inteiro, independentemente do nível de desenvolvimento do país.

Pesquisam apontam que não mudam muito os principais problemas de saúde enfrentados por quem já passou dos 60 seja nos States ou seja no Brasil. Conforme o estudo da ONU, doenças cardíacas, derrame e comprometimento pulmonar crônico são as principais causas de morte. Já as limitações físicas decorrem principalmente de diminuição da visão e da audição, demência e osteoartrites.

Mas, além das doenças crônicas, muitos idosos têm que enfrentar o dilema do abandono, da rejeição e das dificuldades de relacionamento com os mais novos e com os da própria família.

A psicóloga Maria Aparecida da Silva, cita que uma das principais causas de violência e opressão contra o idoso está diretamente ligada ao sentimento de imediatismo muito presente hoje na sociedade.

“O individualismo de muitas pessoas afronta as necessidades dos velhos”, avalia. Por isso, muitos tendem a ver os idosos como estorvo e fardo, ao mesmo tempo que não reconhecem em si os sinais da velhice e os problemas que todos teremos se chegarmos a ter idade avançada”, afirma.

Estes são dos principais motivos do abandono dos idosos em asilos e casas de repouso, seguidos com a dificuldade de relacionamento com filhos, netos, genros e noras. É comum abrigar idosos que, segundo os familiares, estão afetando a harmonia da família.

Isto fica claro diante das limitações naturais a que os idosos estão sujeitos, sejam limitações físicas ou mesmo psíquicas. Mas, se por um lado, as muitas casas de repousos ainda são vistas como depósitos de velhinhos, muitas vezes, são a última alternativa antes da violência. Então, o asilo, as casas de apoio e os pensionatos acabam sendo o lugar de segurança e conforto para quem atingiu a antigamente chamada terceira idade, que, muitas vezes, não obtém apoio familiar.

Benedita do Carmo Lacerda, do Pensionato Nossa Senhora Aparecida, de Itapira, cuida de idosos há 22 anos. Ela sabe muito bem sobre as necessidades de quem já dobrou o Cabo da Boa Esperança há muitos anos.

“Eu percebo os idosos muito necessitados de afeto, compreensão e carinho. São extremamente carentes e sentem como nenhum outro a solidão”, explica.
Ainda segundo Benedita, a velhice é muito mal compreendida no Brasil de forma geral, e por isso defende a criação de casas e unidades de atendimento cada vez mais para evitar que muitos fiquem abandonados em suas casas.

“É muito importante que eles tenham um local onde possam passar o dia com as pessoas que tenham as mesmas necessidades, para que tenham um sentido de pertencimento, já que muitos idosos precisam de apoio em várias coisas, desde a locomoção a questões de memória. Nos pensionatos e casas congêneres, ao menos ganham carinho e respeito, além do que nos ensinam a lição de vida da paciência”, admite.

Vale dizer que o envelhecimento acelerado da população, principalmente nos países que estão em desenvolvimento, como o Brasil, ser velho é antes de tudo um desafio.

Um desafio que requer investimentos cada vez maiores no sistema de saúde, na Previdência Social e na integração social. A questão da socialização precisa ser levada a sério.

Os antigos centros de convivência da terceira idade não eram a solução ideal, claro, mas era um passo significativo para propiciar o contato por meio da amizade, recreação e algumas ações de saúde.

Iniciativas como estas foram perdendo força ao longo dos anos, em especial porque dependiam muito da boa vontade e do estímulo de determinados integrantes que acabaram morrendo, e os sonhos deitaram também terra.

Hoje em dia, os Centros Dia do Idoso possuem uma estrutura mais ampla, com serviços que contemplam um atendimento integral à saúde, inclusive a psíquica. Também contam com o suporte da terapia ocupacional, recreação, convivência e bem-estar, assim como de ações de assistência social e políticas públicas. O grande dilema são os custos altos, mas o caminho a ser seguido é este, devido à excelente estrutura e convergências de serviços.

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