A DOR DE PERDER DOIS FILHOS DE UMA VEZ SÓ

Dona Maria Lúcia Orsini Mariano é uma mulher de fé e coragem. Sua compleição física tranquila desmente a existência de uma mãe que foi barbaramente golpeada pelo destino; que vergou, sim, mas não se rompeu em definitivo.

Dois dos seus quatro filhos: Kleber Luís Mariano, 20, e Clayton Luís Mariano, de 17anos, morreram em trágico acidente ocorrido no último dia 25, no distrito de Barão Ataliba Nogueira, em Itapira, e no qual também morreu Laércio da Costa, 46, após colisão entre duas motos de cujos mistérios a perícia ainda apura os nós.

A mãe dos ‘meninos’ e a filha Carol, de 16 anos, receberam em casa a reportagem do JG e relataram as dificuldades de conviver com as saudades que nunca serão amainadas. A família, todos indistintamente, está em choque e passa por atendimento psicológico no SUS – uma forma de diminuir a dor e dar um norte ao sentimento de luto que parece eterno.

“Parece que vão entrar pelo portão a qualquer momento”, comenta Lucia, impotente diante de uma realidade imprevisível e mais forte do que ela e que a deixa expectante nas cinzas das horas.

Chora. As lágrimas não são abundantes, mas espessas, doloridas, quentes, saudosas e resignadas. “Está tão difícil. Gostaria que eles estivessem aqui comigo”, resigna-se.

Falar dos filhos com uma compunção quase sutil. Primeiramente sobre o mais velho. “O Kléber sempre foi muito carinhoso. Era calmo e não pensava nada de mal. Trabalhava na TIB e possuía um futuro imenso”, disse. “O Clayton, por sua vez, tinha um gênio mais forte, mais nervosinho, mas perdoava facilmente. Nunca guardou mágoa de quem quer que seja e queria as coisas sempre do jeito dele”.

Lucia, como é conhecida no distrito, confidenciou que os irmãos eram como unha e carne, uma união que dava gosto de ver. Sempre juntos e nunca se desgrudavam. “O Clayton mencionou que não aguentaria ficar longe do Kleber caso este viesse a falecer”. “E foi o que aconteceu”.

Tragédia ceifou a vida dos filhos de dona Maria Lúcia. Ficaram as saudades

PRESSENTIMENTOS

No dia do acidente fatal, dona Maria Lúcia estava na cozinha da Igreja Assembléia de Deus (Ministério Madureira) do Barão. Cristã, ajudava na produção de salgadinhos para angariar recursos para o templo religioso.

“Na hora que a ambulância do Samu passou correndo, eu senti algo dentro de mim e afirmei: são os meus filhos”, observou. “De imediato, fui para fora e corri em direção ao local do acidente, mas não tive força para seguir adiante”.

Os filhos também tiveram pressentimentos da morte. Kléber, segundo Maria Lúcia, andou de mãos dadas com ela pelo centro de Itapira na manhã do dia do acidente. “Falou querer que todos me vissem como sua namorada”, lembra com uma saudade deliciosa que flamejou em seu olhar.

A irmã Carolina, por sua vez, relatou que Clayton postou no Facebook uma frase sugestiva: “A gente nasce sem pedir e morre sem querer. Portanto, aproveite o intervalo”. Seria premonição?


BOATOS
 

A família se diz indignada com os boatos que surgiram após a colisão fatal.
Diferentemente do que fora difundido, Lúcia não foi ver os corpos após o acidente. Tampouco desmaiou ou precisou ser levada às pressas de ambulância para o pronto-socorro, embora tivesse que ser medicada.

Outras versões maldosas foram rechaçadas. A principal a de que Kléber e Clayton estavam drogados ou bêbados no dia do acidente. “Eles não ingeriam álcool ou mexiam com entorpecentes”, conta Maria Lúcia.

Sobre o dinheiro – R$ 1 mil – encontrado no bolso de Kleber, ela explicou que seria para pagar a liberação do documento de um automóvel em Itapira. “Além disso, cada um estava com a corrente de prata de estimação, mas só uma retornou para nossa casa; quem pegou a outra?”, questiona.

A única pessoa a veros corpos dos meninos no asfalto foi o marido, Luís Mariano. “Ele não sabia a quem abraçar primeiro, se ao Kléber ou ao Clayton”, destaca a mulher de fibra forte, que tem mais um filho, Caíque, com 14 anos.

“O povo inventa muita coisa falsa”, criticou a irmã. “Meus irmãos tinham o rosto limpo, eram respeitadores e educados”, mencionou a moça com a veemência de quem busca na defesa dos irmãos o resgate de uma história de amor que nunca terá fim.

 

Amigos preparam homenagem

Amigos de Kleber e Clayton preparam uma bonita e justa homenagem no primeiro mês de morte dos rapazes do Barão. Está prevista uma carreata pelas ruas do distrito em memória de quem nunca será esquecida. O movimento já conta com mais de 200 participantes.

Embora não seja obrigada, a adesão será feita mediante a aquisição de uma camiseta que está sendo confeccionada com estampa de uma fotografia dos meninos de dona Maria Lúcia Orsini Mariano.

“Acima de todos os boatos e mentiras, esta homenagem é uma demonstração clara do afeto e do carinho dos muitos amigos para com  meus  filhos”, conforta-se a mãe coragem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *