A DITADURA REVISITADA: COMO O GOLPE IMPACTOU NO GUAÇU E REGIÃO

Brasil. 1º de abril de 1964. O ensaio da truculência premeditada anos anteriores se tornara encenação real no palco da sociedade brasileira. Por duas décadas seguintes a população viveria sob uma ditadura militar corrupta, assassina e covarde em relação às leis constitucionais e civis. Agora, 50 anos depois, os ecos da ditadura ainda bramem.

Para muitos que passaram pelos horrores daquele tempo, a ditadura de 64 não deixa saudades. Apenas lições de como impedir a quartelada e o regime de exceções permeado por um histórico de vilipêndio de lesa-humanidade.

Para outros, em especial uma juventude bem nutrida da classe média brasileira, netos daqueles que defenderam o golpe nos anos 60, a ditadura foi o ápice do paraíso constitucional, mesmo que seja uma contradição derrubar o governo constituído para conclamar novas eleições que nunca vêm – como se a faxina de um país continental fosse algo conquistável aos chutes de coturno.

Dr. Ito sofreu com sessões de tortura entre 1971 e 1972

O médico itapirense Içamu Ito, que participou da clandestinidade pela AP (Ação Popular), sabe muito bem o que foi sentir na pele as torturas de um governo de generais que caçou as liberdades e usou a força descomunal para perseguir os compatriotas apenas pelo simples fato deles serem do contra, ou subversivos, como eram classificados à época os contrários ao regime.

“Fiquei preso no DOPS de São Paulo de novembro de 1971 a abril de 1972”, conta o médico. “No período, fui amarrado em pau de arara e vítima de sessões de choques e de espancamento”, confidencia. “Os choques vinham de fios amarrados nas extremidades, como os dedos das mãos, dos pés, nas orelhas, órgãos genitais ou na cabeça”, observou. “Não gosto nem de lembrar o nome da rua onde fiquei preso”, diz sobre o famoso e terrível endereço do Largo general Osório, 66, no Centro de Sampa, endereço do Departamento de Ordem Política e Social.

O escritor e jornalista Jasson de Oliveira Andrade, que mora em Mogi Guaçu, escreveu um livro intitulado “Golpe de 64 em São João da Boa Vista”, no qual relata que sofreu ameaças de agressão por partidários da ditadura.

Jasson escreveu livro sobre a ditadura em São João e região

Andrade perdeu emprego num órgão federal em que trabalhou, o SAMDU. Ali, sofreu uma devassa sem saber o porquê e ficou sem salários, a viver com a ‘vaquinha’ realizada por amigos. É o que está relatado no empolgante livro por ele escrito.

Na obra, o jornalista cita que, em São João, várias pessoas foram presas, com reflexos desastrosos para si e para os familiares, conforme depoimentos revelados anos depois.
“Em Mogi Guaçu, soube que algumas pessoas foram ouvidas, mas ninguém foi preso”. “Já em Espírito Santo do Pinhal, alguns funcionários do Samdu foram presos”.

Nestes 50 anos posteriores da ditadura instalada, o jornalista de memória privilegiada avalia que o grande responsável pela instauração do golpe foi o ex-presidente Jânio Quadros. “Tanto assim que no meu livro, na segunda parte (Política Nacional), dedico três artigos à sua desastrada renúncia. Sem ela, não teríamos o Golpe. É o que eu penso”.


DEMOCRACIA

O radialista Luiz Antonio da Fonseca, o Toy, contemporâneo de José Dirceu, um dos líderes da geração de 68, também não tem saudades dos anos de chumbo e acredita que a nossa democracia ainda precisa de  ajustes para se tornar amplamente madura.

Por isso mesmo, faz um alerta a respeito das demandas que a sociedade requer, e desta forma deixa senões no colchão social com brechas que podem tornar vulneráveis os aspectos constitucionais da vida pública brasileira.


“Há muito desmandos, muita corrupção e descontentamentos, que debilitam a legitimação da democracia e faz com que parte da população sonhe com uma ditadura que vá melhorar a vida das pessoas”, comenta.

Toy Fonseca ainda vê a democracia brasileira debilitada

Só de pensar nesta hipótese, o jornalista Jasson se diz preocupado, mas faz um voto de fé na democracia. “Na democracia os corruptos são julgados e condenados. Estão presos. Na Ditadura, com a censura, a corrupção, muito maior do que a atual, não era conhecida e muito menos punida”. E grita a plenos pulmões: “Ditadura nunca mais”.

Por sua vez, Toy Fonseca, concorda que mesmo não sendo o melhor dos regimes, a democracia proporciona liberdade para o debate acerca dos rumos da vida econômica, social e política do país, sem perseguições às divergências, pois que alentam o aperfeiçoamento da qualidade de vida da população e das instituições. “Temos que pôr a barba de molho a respeito destes movimentos que requerem a ditadura, mas a democracia vai avançando mesmo assim”, conclui.

Já o médico Dr. Ito tem outro ponto de vista a respeito de toda ebulição do momento. Para ele, são reflexos de um amadurecimento real da democracia brasileira e não enxerga fantasmas no horizonte. “Não creio que estas demonstrações de apreço pelos anos de chumbo sejam perigosas. Elas são parte da democracia, do entrechoque de ideias e de posicionamentos”.

 

MORELLI RELATA AMBIENTE À ÉPOCA GOLPE

Um dos líderes do PT guaçuano, também liderança da CEBs (Comunidades Eclesiais de Bases) e sindicalista, Nelson Morelli era militar no centro da ebulição. Ela conta como era o espírito da época. 

“Infelizmente estamos completando 50 anos do chamado Golpe Militar. Quis o destino que eu juntamente com mais 18 companheiros, jovens, fossemos convocados a ser do Exército Brasileiro no Rio de Janeiro em 1963, sendo que, fomos a primeira tropa de são Paula a servir no Rio de Janeiro.

A mudança da capital da Republica era recente, por isso o Rio de Janeiro, naquela época ainda exercia uma forte influência politica.. No ano de 1963, foi um ano com muitas turbulências. Houve vários acontecimentos, greves, manifestações, revolta dos sargentos, etc. Esse período foi muito conflituoso pois tinha uma pressão muito grande da parte da sociedade e repressão que resultou com o 1º de abril – Golpe Militar 1964.

No primeiro momento o que pensavam os jovens com idade de 18 anos no centro da ebulição, onde houve grande parte dos acontecimentos. Enquanto soldados não tínhamos ideia dos fatos que estava acontecendo, pois tínhamos que obedecer o comando do Exército do Rio de Janeiro.

Após o Serviço Militar, toquei minha vida como qualquer cidadão, trabalhando, constituindo família e, na medida do possível participando de movimentos sociais e religiosos.

O que eu posso dizer é que havia insegurança e medo das pessoas que moravam no interior. Por isso quero registrar a importância da igreja católica durante a ditadura, por exemplo, a criação de CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) que neste período foi uma ferramenta fundamental por aqueles que de certa forma estavam sendo perseguidos ou não concordavam com a situação imposta pela ditadura.

Foi aí que, depois de algum tempo percebi o mal que estava acontecendo no país. O meu engajamento nos movimentos sociais se deu pela indignação. Quero registrar que por isso achei importante engajar na luta.

Neste período entrei como militante no movimento sindical onde fui presidente do Sindicato da Alimentação e na política através do Partido dos Trabalhadores onde me elegi para vereador.

Observo que todos os movimentos, tanto sindical quanto os políticos, culminou com a democratização no país, pois o povo passou a questionar e reivindicar seus direitos e liberdade de expressão.

Em termo de vida social mesmo com a repressão as pessoas se reuniram em bailes, passeios e etc. Em relação à comparação do Governo Dilma e a semelhança de 1964 é difícil de responder, pois os cenários eram outros, o cenário de 1964 não tínhamos o que temos hoje em relação a mídia, existia naquele período um desejo de mudança muito grande por reformas que era objetivo do Presidente João Goulart, mas que teve uma influência muito forte, que se deu por conta dos Estados Unidos. Como todos sabem quem influenciou, comandou e coordenou o Golpe Militar foi Estados Unidos chamado Guerra Fria, com medo do comunismo, socialismo que tinha um reflexo de Cuba.

O cenário com Dilma demonstra a juventude que foram para a rua manifestar pois querem mudanças, querem mais, mais não podemos esquecer que nesses últimos anos, o país avançou muito. Houve várias conquistas, não da para citar todas, mas as conquistas de avanços de moradias, bolsas famílias, o pleno desemprego de 5%, estudos, enfim, infinidade de benefícios.

As principais bandeiras do movimento sindical era o salário mínimos de 100 dólares, pagamento de divida externa, coisas mínimas que ninguém se lembra mais teve avanço e é logico que falta muito, temos que melhorar e pleitear em relação a desigualdade social. 

Acredito que, a classe trabalhadora de modo geral esta contente, pois os supermercados e filas de açougue estão cheios.

Mas a direita asquerosa, não suporta ver trabalhador no poder e ficam com essa história de inflação fora de controle, mas todos sabem que eles não tem argumentos contra essa realidade.

O país já deu demonstração que tem uma força muito grande na suas instituições, já esta comprovado em movimento sindical e movimento social forte, creio que temos uma democracia quase plenamente consolidada. É logico que isso não se reflete no Congresso Nacional, onde as forças da direita se predominam, de cada quatro deputado, três representam a direita, banqueiros, agronegócios, multinacionais, entre outros.

E fica claro que tem ainda um porcentual, acredito pequeno mas existi, de pessoas que sonham com a volta da ditadura e, pelo o que se apresenta na mídia são pessoas que não sentiram na pele os efeitos dela. Sua volta seria uma aberração.

Eu acredito que a maioria da população tem consciência que não irá jogar na lata do lixo todos os avanços que tivemos nos últimos anos do ponto de vista social, politico e de organização”. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *